Diogo Sili e Renato Frazão - Um Sussurro na Algazarra

Detalhes

19:00
22/08/2019
Auditório Radamés Gnattali

Release por Thiago Amud


Renato Frazão e Diogo Sili têm escrito um discreto e precioso capítulo na história do brasileiríssimo casamento de letra e música. Eles precisam ser discretos para que suas canções (“um sussurro”) melhor inoculem o vírus da delicadeza na brutalidade geral (“na algazarra”). Não se contarão aos magotes seus ouvintes, mas sim um a um. Nisso foram muito bem precedidos por Tom e Vinícius, Bosco e Blanc, Edu e Chico, Dori e Paulo Cesar Pinheiro, Guinga e Aldir, Kneip e Aguiar (cujos nomes, aliás, fecham com chave de ouro “Parceria”). Quem perceber na linhagem acima a curva descendente do nível de fama não veja nisso nenhum sinal de esgotamento criativo de nossa música popular. Ao contrário, é sinal de que essa forma de expressão chamada “canção brasileira” vem se depurando, se conscientizando de seus próprios meios expressivos, vivendo sua própria individuação em relação a outras formas de expressão. E a forma de expressão da qual tal linhagem tem se afastado ao longo de sua história tem sido justamente a canção de consumo imediato. O afastamento que tal linhagem vem empreendendo em relação ao canto de sereia midiático tem sido contínuo porém não dogmático, pois não é deliberadamente buscado como reatividade. Antes, é algo enfrentado corajosamente por todos eles, cada um na singularidade de seu momento histórico. Entretanto, nos dias de hoje o divórcio entre o tipo de música produzido por autores como os citados acima e os meios de comunicação de massas já não é amigável. A maioria dos meios de comunicação simplesmente inverteu os papéis e passou a dar as cartas sobre o que pensa que deve ou não deve ser a produção de canções brasileiras. Noutras palavras, as portas foram quase todas fechadas aos cancionistas que desconhecem parâmetros quantitativos. Por isso mesmo, Frazão e Sili só poderiam mesmo trabalhar discretamente. A isto foram destinados pela linhagem onde se inserem. Estão condenados a produzir canções necessárias. Rapazes do Rio de Janeiro que identificaram no Nordeste e nos interiores sertânicos suas mais profundas matrizes musicais, o letrista Frazão e o melodista Sili terçam vozes e ponteiam violões de aço e nylon em busca da expressão mais singela de oito cantigas (baiões e modas de viola, toadas e ladainhas). Nossa dupla surge com uma geração que tem reinventado o Brasil na música que cria. E decididamente não soa saudosista para ouvidos atentos, como saudosistas não soam Ilessi e Luiza Lacerda, Alexandre Andrés e Frederico Demarca. Desde o título, o disco dá sinais de conhecer muito bem a algazarra de nossos tempos; portanto, a necessidade de afirmar “um sussurro” não representa fuga para um passado idílico. Não existe na história da arte isso de “para frente” e “para trás”. “Para frente” e “para trás” são parâmetros da técnica. Ou, numa visão mais sofisticada, da ética. Guardemos esse ponto, porque é justamente nesse sentido ético que Frazão e Sili vão inaugurar o tempo que só a eles coube inaugurar: o tempo singular da música que eles mesmos criam (e mais ninguém). Por isso são evidentemente “para frente”, na medida em que cada artista só avança os passos que couberam a ele avançar - e, quando assim o faz, tais avanços contribuem para um melhor entendimento das coisas da sensibilidade. Em Frazão e Sili coexistem o Brasil de extrato mariodeandradiano com este brutal Antropoceno que está nos cabendo viver. A letra do baião “Um Canto Novo” soa como uma carta de intenções. A reciprocidade entre os tempos é condição para a criação: o canto é tão mais contemporâneo quanto mais o compositor de hoje consegue escutar tempos remotos, homens distantes, párias. Da mesma forma, “Rio Doce” e “Negro Sangue” são diatribes contemporâneas em clave armorial. E escolho a curiosa “Pra Você Não Vir Comigo” para arrematar este texto de apresentação. A canção brasileira mais camerística tem assimilado longamente dispositivos do “não-dizível”, fenômeno que antes se restringia ao campo de uma poesia mais simbolista. Mas, analogamente, também em nossa canção mais camerística “aquilo que não-pode-ser-dito” tem encontrado espaço na explicitude de termos chulos. Guinga e Aldir Blanc são os maiores representantes dessa tendência. Quando “aquilo que não-pode-ser-dito” não fica mais restrito apenas à imaginação picaresca de ouvintes bem educados e vai aparecer explicitamente na superfície de uma canção singela e burilada, opera-se uma subversão: os campos vastos de nossa imaginação são devolvidos ao sublime, pois o chulo se restringe à epiderme. (Dialética guinga-blanquiana muito bem assimilada pelos novos bardos...) Liberar os dizeres, ressacralizar o imaginário. O oposto do que se busca na macropolítica. “Um Sussurro na Algazarra” é um pequeno grande disco que encara o desafio de transfigurar a matéria amorfa da vida contemporânea.


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